sábado, 1 de agosto de 2009

Trilhos e Tempo

VILELA FILHO Osório


Como o dono deste blog pediu a mim que escrevesse uma postagem sobre um assunto do meu interesse, hoje o espaço aqui é meu.
De início, ia escrever sobre o transporte sobre trilhos, que muito me fascina. Durante a leitura de um livro que tenho lido nas últimas semanas, no entanto, resolvi mudar o tema para a questão do tempo, que, pasmem, para mim, tem tudo a ver com o transporte sobre trilhos. O porquê de esses dois temas aparentemente tão distintos estarem relacionados é que sempre sonho com metrôs, e já li que o metrô, ou qualquer outro meio de transporte sobre trilhos, tem a ver com passagem, portais, evolução etc., ou seja, ligações entre o “real” (mundo físico) e o etéreo (mundo espiritual). Como sonhos e as interpretações deles têm tudo a ver com tempo, coloco aqui um trecho do livro que tenho estudado nas últimas semanas, o “Diversidade dos Carismas: teoria e prática da mediunidade”, de Herminio C. Miranda. Nesta parte, ele comenta sobre futuro e presente e suas relações, ao comparar sua visão com a de Regina, um caso estudado no livro. Também relaciona esse tema do tempo aos desprendimentos efetuados por nós todas as noites enquanto dormimos, ainda que involuntariamente e que nos esqueçamos da maior parte do que passamos “do outro lado”. Leiam e reflitam:

“(...) Na minha opinião, os eventos já existem e nós apenas passamos por eles (...). Para Regina a teoria é outra. Acha ela que o tempo decorre em ritmos diversos e, portanto, com diferentes espaços de duração. (...) Quanto a mim, acho que o tempo é, também, um local (...). Vejamos, porém, como Regina explica sua teoria.
Ela acha que no plano invisível, onde vivem os seres desencarnados, o ritmo é muito mais acelerado do que neste em que vivemos nós, os encarnados. Segundo essa hipótese, os seres espirituais movimentam-se em outra dimensão, como se costuma dizer, na qual a velocidade dos eventos é de difícil apreensão para nós, enquanto encarnados. Porém, uma vez desdobrados, ou seja, na condição de espíritos em estado de relativa liberdade, porque ainda presos ao corpo físico, temos condição de captar o que se passa nessa outra dimensão. (...) Segundo Regina, uma vez desdobrada do corpo físico, ou seja, na condição de espírito, ela se sente livre da dimensão reservada para o ser humano encarnado e, portanto, do ritmo que lhe é próprio, e mergulhada em espírito na outra – qualquer que seja o significado disso. Nesse ritmo diferente é que se movimenta o espírito que vive em um contexto energético e não material, como o do ser encarnado. Uma vez liberada da necessidade de arrastar o corpo físico e submeter-se aos seus ritmos lentos, Regina pode assumir sua condição de espírito e viajar no tempo – rumo ao futuro ou ao passado – no ritmo mais acelerado do espírito. Como que cavalgando esse dispositivo e deslocando-se a uma velocidade muitíssimo superior à da luz, ela pode dar uma rápida ‘escapada’ até o futuro para ver as coisas que lá, naquela escala, já aconteceram, embora não aqui, onde vivemos nós, os lentos. Ao voltar ao corpo físico, reingressa ela em sua dimensão humana habitual, na qual os eventos já vistos do lado de lá ainda não ocorreram. (...)
Vivemos, como encarnados, em uma dimensão e sob condições tais que nos mantêm na posição de verdadeiras lesmas cósmicas (...). Aqui estamos impregnados de átomos, bilhões e bilhões deles, limitados a cinco sentidos básicos, contidos nos estreitos parâmetros de um cérebro biológico – que mesmo assim é um dos prodígios da natureza –, presos, enfim, a um esquema limitador como o encarcerado, que traz pesada bola de ferro acorrentada aos pés. Somos, portanto, balões cativos; pensantes, mas balões. (...) Somos como a Alice de Lewis Carrol diante do seu espelho mágico. Do lado de cá, o mundo prosaico, lento, pesado, difícil e monótono. Do outro lado do espelho, tudo é possível, porque temos o domínio do tempo. É um mundo encantado, veloz, fácil, leve, no qual podemos ir ali um pouco mais adiante e ver o caminho por onde iremos passar amanhã, depois, ou daqui a dois mil anos. (...)”

Acho interessantíssimo tudo que é tratado no texto: tempo, desprendimento, mundos etc. Importante refletir sobre essas questões, muitas vezes tão esquecidas, talvez por influência de uma vida tão corrida. Também muito interessante notar que em apenas uma postagem "inconscientemente" consegui reunir grande parte das coisas que mais me dispertam interesse: as duas vidas paralelas que temos, tempo, trem e Salvador Dalí, que ilustra a abertura.


Na foto, a obra “A Persistência da Memória” (La Persistencia de la Memoria ou Los Relojes Blandos), pintada em 1931 pelo meu pintor preferido, o surrealista Salvador Felipe Jacinto Dalí i Domènech, ou simplesmente Salvador Dalí. Essa obra que tem tudo a ver com o tema desta postagem, visto que relaciona tempo com sonho e até com movimento, vide os relógios que derretem.
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Fonte de consulta: MIRANDA, Herminio C. Diversidade dos Carismas: teoria e prática da mediunidade. São Paulo, SP: Lachâtre, 2007. 5ª edição, 1ª reimpressão.

3 comentários:

thayze darnieri disse...

... tão delicioso ler algo encharcado de informações, bem a moda Osório Filho!

também penso assim com relação aos trilhos, tempo e passagem. tanto qe a primeira vez qe entrei em uma estação de metro (com o dono deste blog e autor deste post) imaginei de súbito qe o purgatório seria como aquele lugaar.

ai, gostando tanto disso, de abrir as portas do blog para outras pessoas. quisera eu ter esse desprendimento!

Vitor Veríssimo disse...

É mesmo bom abrir nosso espaço para que outras pessoas possam mostrar um pouco da sua "cara", ainda mais quando temos a sorte de sermos prestigiados com textos de grande qualidade e interesse como este e o "Clichê".
De fato, tempo e trem tem uma certa ligação, o livro citado da até uma boa explicação de tempo e desprendimento, caso alguém se interesse mais pelo assunto, é so procurá-lo.
Obrigado Osório, pela bela contribuição, tornano o Talvez Útil, um lugar mais interessante...

Remi disse...

AAAAAAAh!!
Muitas coisas num só post!!
Terei que relê-lo umas cinco vezes, no mínimo, antes de entendê-lo mais ou menos bem!!